Projetos

Ferramental de engenharia com IA

A leitura comum de “usar IA para programar” é um assistente que escreve função. Não é o que eu faço, e a diferença não é de grau.

Por que eu comecei

O agente falha exatamente onde a documentação falha. Quando a convenção está implícita, quando a regra mora na cabeça de alguém, quando “é assim que a gente faz aqui” nunca foi escrito, é ali que o resultado sai errado.

Trabalhar assim me obrigou a tornar explícito o que eu já deveria ter tornado explícito para pessoas. O ganho de qualidade para o time veio junto, e não era o objetivo declarado.

O que eu construí

Um ferramental de engenharia em volta do agente, que deixou de ser meu: hoje é um produto interno que qualquer pessoa da engenharia instala com um comando.

As ferramentas da casa viraram comandos que o agente opera. Os padrões viraram instrução que ele carrega sozinho. O conhecimento do parque virou base consultável que se atualiza sem intervenção. E o atrito do dia a dia virou entrada de um ciclo que gera ferramenta nova.

Escrever código é a parte pequena disso.

Como funciona

Três peças estáticas e um ciclo que as alimenta. O ciclo é o que fecha o desenho: ele consome as outras três e devolve capacidade para elas, sem que eu precise empurrar.

O que sustenta o desenho são três decisões. Conhecimento vive uma vez, e adaptador é descartável: o que uma ferramenta faz, qual armadilha ela tem, qual o padrão da casa, fica numa camada só, e o formato que uma ferramenta de IA específica consome fica noutra. Trocar de ferramenta amanhã é escrever um adaptador irmão, não reescrever anos de conhecimento operacional.

É sincronização, não instalação. O comando roda quantas vezes for preciso: peça que mudou de versão é reescrita, conteúdo de quem usa nunca é tocado. Foi por isso que ele parou de se chamar “instalar”, porque o nome errado convidava ao uso errado.

A escrita é graduada por raio de alcance. Qualquer pessoa da engenharia propõe mudança, mas as peças cujo erro tem alcance grande exigem revisão de quem lidera. Não é hierarquia por status: um erro numa habilidade de consulta atrapalha quem a usou, e um erro no gancho de commit atinge todas as máquinas do time na próxima execução.

O que mudou

Deixou de ser meu, e é esse o teste que importa: ferramental que só o autor mantém é configuração pessoal com nome bonito. Hoje outras pessoas da engenharia commitam nele.

Na minha própria prática, o gargalo mudou de lugar. Entender o problema, escolher a arquitetura e escrever o critério de aceite passaram a ser onde o resultado é decidido, porque a especificação é o que o agente executa. E verificação deixou de ser opcional: agente produz resultado plausível com a mesma confiança com que produz resultado correto.

O que eu refaria

Se eu começasse hoje, pensaria no compartilhamento antes. No começo, o ferramental estava bastante acoplado a mim: dependia dos meus tokens, dos meus usuários de CLI e do meu ambiente. Não considero isso um erro grave, porque eu ainda estava descobrindo o que precisava construir, mas quando outras pessoas começaram a usar, algumas dessas decisões precisaram ser revistas.

O ferramental acabou ficando mais simples de compartilhar justamente porque o uso por outras pessoas revelou problemas e trouxe ideias que eu não teria previsto sozinho. Hoje eu começaria com essa possibilidade em mente, mas sem tentar adivinhar tudo antes de colocar a primeira versão para funcionar.

O desenho inteiro, com as peças e o ciclo, está em Engenharia com IA. Onde a IA está dentro do produto em vez do processo, que é outro problema, é em Triagem de licitações com LLM.

Pablo Mickael Quevedo Senior Software Engineer · Novo Hamburgo, RS